segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Corpo em musgo

Fios de água entretecidos descem serenos, em cascata, pelo corpo em musgo, num murmúrio doce e cristalino, como pássaros de asas soltas ao vento quente de fim de tarde, despertando no corpo a memória cálida do toque suave dos teus dedos nos meus... despertando no corpo memórias tão antigas como o tempo em que o tempo era nosso, sereno e suave, e também ele corria doce como a água, por entre o toque dos teus dedos, no meu corpo em musgo...

sábado, 4 de setembro de 2010

Quatrilenga

Eram quatro penas de pavão, estendidas ao sol, na cauda de um varandim. O sol estava preguiçoso, torpe, sonolento, deixou-se cair para o lado sobre o rio cálido do anoitecer do corpo dela, estendida sobre a cama, lânguida, sonolenta, torpe, preguiçosa...

Eram quatro sentidos sem sentido, estendidos ao sol, quatro irmãos de indiferença. Todos eles únicos, poderosos, alegres, em viagem espiralada... Ela sentiu-os através dos vidros do antigo varandim, espreitando, insidiosos, os movimentos ociosos do seu corpo...

Eram quatro tempos e um acorde de quarta aumentada, cairam-lhe em cima de cama, disparados do quarto andar. Quatro diabos melódicos, delicados, doces, despertaram-lhe os sentidos em impulsos delicodoces...

Eram quatro, sempre quatro, até ao infinito, a repetir-se, sempre a repetir-se até que ao fim da eternidade lhe sucedesse o cinco!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Como Cuidar de Ti

Os gatos não são como as pessoas…


… Não comeram da maçã, não falaram com serpentes, nem conheceram Adão, não estão nus por dentro nem por fora, nem na alma nem no corpo, não respeitam a deus e não têm vergonha, não se envergonham de nada, não enveredam por vãs estéticas, nem pelas futilidades televisivas, não fazem dietas, nem usam batons, nem perfumes para sair à noite, não pintam o pêlo nem lavam os dentes, mais não querem que comida na tigela e água fresca e uma mão que os afague quando muito bem lhes apetece, não embarcam em coscuvilhices de alcova, nem em hipocrisias caseiras, são o que são sem medos, inseguranças, ou outros ardis quotidianos cheios de nada, não lêem livros nem jornais, não vão a palestras nem ao teatro, não comentam a cor do pêlo de outros gatos nem outras ambiguidades que tais, mas dormem, dormem muito e sonham, sonham com comida, com o paraíso dos gatos e comida, e o deus dos gatos e comida, e acordam para comer e voltam a dormir e a sonhar, e no intervalo desta azáfama brincam, saltam e correm e zangam-se, e falam com as pessoas sem entender que elas já não os entendem, voltam então a brincar, com novelos e pássaros e canetas e pendentes, e com o maço de cigarros deixado ao pé do computador, e não têm consciência pesada pelo peixe que pescaram do prato em cima da mesa e fogem sem que na verdade o medo tenha uma forma concreta, e saltam pelos telhados e vão às gatas pela noite fora e voltam e começam tudo de novo, sem tédios nem tormentas nem questões existenciais, e são felizes, sem possuir, uma consciência narcísica ou sequer o conhecimento de que são gatos e são livres…

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Definições


Vivem nos beirais dos telhados, em frente da minha janela, ervas silvestres em verde seco, que florescem descaradamente em tons de rosa flamejante, como se lhes fosse permitido florir com a mesma naturalidade que uma planta cientificamente classificada, daquelas que crescem em jardins botânicos, especializados em plantas cientificamente classificadas. Vejo-as viver, respirar e sorrir com o sol e com os gritos das gaivotas pela manhã. À noite espreito-as e encontro-as aninhadas, juntinhas, protegendo-se do frio e da humidade que vem do rio. Vivem nos beirais dos telhados e não têm nome, nem classificação científica. Pessoas, que poderíamos pensar mal intencionadas, diriam que eram apenas ervas daninhas, e que por isso vivem nos beirais dos telhados. Mas não são mal intencionadas, apenas ignorantes. E as ervas que crescem em frente da minha janela, nos beirais dos telhados, não sabem da existência das pessoas ignorantes, nem dos jardins especializados em plantas cientificamente classificadas. A sua totalidade é simplesmente viver, com o sol e a liberdade, em cima dos telhados.

Por vezes à noite oiço-as sussurrar, em cima dos telhados. E quando sussurram é como um aviso que vem com o vento, que diz que o amarelo e o pardo vão pegar-se por um pedaço de nada apanhado num saco do lixo perdido na rua. A rua é pequena e os telhados são das ervas silvestres. O amarelo e o pardo nem sempre concordam com a divisão de território e os gritos agudos que elevam pela noite solitária fazem gelar os ossos. Quando amanhece, a rua é das pessoas, e o amarelo e o pardo já não disputam a fronteira dos seus territórios de acasalamento e sobrevivência. Coabitam em silêncio e tentam passar despercebidos. Sabem que no silêncio salvaguardam a sua liberdade. Para as pessoas ignorantes o amarelo e o pardo são vadios, não têm nome, nem classificação científica, não têm registo da sua árvore genealógica, nem sabem o que isso é. A totalidade deles é viver, simplesmente, apanhar sol e serem livres e caçarem à noite na rua deserta.

Às vezes, o pardo aventura-se fora do seu território e desce a rua até ao cruzamento onde as escadinhas o fazem subir a outra realidade, onde há outros semelhantes, que como ele procuram na noite o seu sustento. Há certas noites que o pardo encontra um outro ser pelo caminho. Costuma deitar-se no banco ao cimo das escadinhas. O pardo já o conhece pelo cheiro intenso. Observa-o e não o compreende. Não sabe que são de espécies diferentes, não sabe classificar isso. Mas o pardo não é propriamente ignorante, pois se o fosse diria que aquele ser era um vagabundo. Para o pardo ele é apenas um ser, que na profundidade dos seus olhos, transporta a história do mundo. O ser ressona enrolado num cobertor velho. O pacote de vinho de temperar tombado no chão. O pardo observa e pergunta-se se ele terá deixado algumas sobras nos sacos do lixo. O ser não sabe da existência do pardo, nem das ervas silvestres nos beirais dos telhados, nem das pessoas ignorantes. A sua totalidade é ser todas as pessoas do mundo, todas as realidades aparentes, todas as ilusões verdadeiras. No fundo dos seus olhos, todos os medos dos homens, e todas os desejos inocentes dos que um dia o hão-de ser.